Convento de N. Senhora de Jesus

Convento de N. Senhora de Jesus, Lisboa.

O Convento de N. Senhora de Jesus, da Ordem Terceira de São Francisco, em Lisboa, foi o primeiro centro de Estudos Orientais em Portugal, marcando o início de institucionalização desses estudos.

Esta circunstância deveu-se ao seu Principal, Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, que, entusiasmado com progresso desses estudos na Europa, decidiu introduzir o ensino de línguas orientais: Grego, Hebraico, Siríaco e Árabe através do Plano Geral de Estudos para a Congregação da Terceira Ordem de S. Francisco do Reyno de Portugal (1769).

Inicialmente, estas línguas eram ensinadas por mestres estrangeiros de passagem por Portugal.

O primeiro foi Joaquim Sader de Alepo que ensinou o Árabe e o Siríaco ainda em 1768. Mais tarde, Paulo Hodar, mestre maronita, ministrou aulas do Árabe e do Siríaco a Cenáculo e a outros confrades numa base regular entre 1770 e 1773, o que permitiu lançar um primeiro curso de Árabe nesse Convento, regido por Frei António Baptista Abrantes nos anos 1772-1780. Um outro discípulo de Paulo Hodar, Frei Marcelino José da Silva, foi autor de um interessante opúsculo sobre as vantagens de conhecer o Árabe.

Foram, igualmente, ministradas aulas de Grego e de Hebraico onde se destacaram como discentes, respectivamente, Frei João de Apocalypse e Frei Francisco da Paz, porém, na altura, a ligação do Árabe ao mundo da diplomacia, em franca expansão devido à política de aproximação às potências do Norte de África, imprimiu uma dinâmica especial ao ensino desta língua, bem como ao cuidado que houve em prover o Convento de N. Senhora de Jesus com os melhores materiais didácticos disponíveis, nomeadamente com gramáticas, dicionários, textos impressos etc., tanto por parte das instâncias eclesiásticas, como por parte da Secretaria de Estado da Marinha e dos Negócios Ultramarinos, responsável pela condução das negociações com as potências muçulmanas.

Os resultados alcançados foram apresentados publicamente nas sessões de oratória promovidas no Convento em 1770, por ocasião da visita ao Convento de D. José, herdeiro do trono, em 1773, na presença de dois secretários de Estado e numerosos cortesãos e em 1775, por ocasião da inauguração da estátua equestre de D. José I.

Esta fase dos primórdios foi relatada pormenorizadamente pelo cronista da Ordem, Frei Vicente Salgado, em Origem e Progresso das Linguas Orientaes na Congregação da Terceira Ordem de Portugal (1789, 2ª ed. 1790).

O afastamento de Cenáculo de Lisboa (1777) teve como consequência uma interrupção do ensino das línguas orientais no Convento.

A necessidade de haver “arabistas práticos” levou, todavia, a que, numa perspectiva pragmática, o ensino do Árabe fosse gradualmente reconstituído a partir de 1788, a título particular e, a partir de 1795, com carácter oficial, sendo o curso do Árabe regido por Frei João de Sousa.

Seguiram-lhe na docência, três dos seus discípulos portugueses Frei José de Santo António Moura, Frei Manuel Rebelo da Silva e Frei António de Castro.

As aulas podiam ser frequentadas também por frades de outras ordens religiosas e, até por leigos.

De salientar que a qualidade do ensino oferecido em Lisboa atraiu, inclusive, vários estrangeiros que frequentaram aulas de Árabe no Convento, entre outros, o arabista espanhol Frei José Banqueri, o professor de filosofia e matemática Narciso de Heredia e o arquitecto Melchior de Prado y Mariño, também Espanhóis, o jurista e linguista americano John Pickering, o orientalista francês Louis Dubeux e vários outros cuja identidade se desconhece.

A extinção das ordens religiosas e o subsequente fecho dos conventos masculinos, decretados pelo governo liberal (1834) constituiu um rude golpe na actividade docente exercida no Convento. Por uma autorização especial e, apenas, a título particular, as aulas do Árabe foram ainda ministradas, de forma irregular, até cerca de 1844.

O edifício do Convento, conjuntamente com a sua riquíssima biblioteca, oferecendo um inestimável acervo no âmbito de Estudos Orientais, tornou-se propriedade da Real Academia das Sciencias, fundada em 1789, a actual Academia das Ciências de Lisboa.

O espólio da biblioteca conventual foi inventariado em dois catálogos manuscritos (1825 e 1830). Recentemente, os manuscritos do seu acervo foram objecto de catalogação e estudo crítico, resultando daí o Catálogo de Manuscritos, Série Vermelha em dois volumes (1978 e 1986).

E-M.v.K

Bibl.: SALGADO, Fr. V. (1ª ed.1789, 1790); SILVESTRE RIBEIRO, J. (1872), vol. II; FIGANIER, J. (1945), passim; SIDARUS, A. (1986), pp. 38-43; KEMNITZ, E-M. von (2010), cap. IV.

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