Frei Manuel do Cenáculo

CENÁCULO, Vilas Boas, Frei Manuel do (1724, Lisboa – 1814, Évora), Notável representante da Ilustração Católica, distinguiu-se, entre outros, como impulsionador e mecenas dos Estudos Orientais em Portugal.

A estada em Roma (1755) marcou a sua trajectória intelectual em diversos sentidos, incluindo o despertar do interesse pelas línguas orientais. Eleito Provincial da Terceira Ordem de São Francisco (1768) gozou da autonomia de actuação decisiva para a reestruturação do ensino que empreendeu através do Plano Geral de Estudos para a Congregação da Terceira Ordem de S. Francisco do Reyno de Portugal (1769), que previa, entre outros, a integração do ensino de línguas orientais: Grego, Hebraico, Siríaco e Árabe.

Na fase inicial, Cenáculo recorreu, para efeitos de docência, a estrangeiros em Portugal, em especial, a Maronitas, que desempenharam um papel importante no desenvolvimento do ensino do Árabe, também noutros países católicos da Europa.

Paulo Hodar, mestre maronita, ministrou aulas do Árabe e do Siríaco a Cenáculo e a outros confrades numa base regular entre 1770 e 1773, o que permitiu lançar um primeiro curso do Árabe nesse Convento, regido por Frei António Baptista Abrantes nos anos 1772-1780.

Graças a estas circunstâncias e ao mecenato dispensado por Cenáculo de forma continuada em forma de aquisições de livros e outros materiais de ensino, o Convento de Nossa Senhora de Jesus, em Lisboa, tornou-se no primeiro e afamado centro de ensino de língua árabe em Portugal. De sublinhar, como traço distintivo do arabismo português, naquela primeira fase, a sua exclusiva dependência de uma instituição eclesiástica, nomeadamente da Terceira Ordem de São Francisco.

Para o desenvolvimento e a consolidação de Estudos Orientais, e, em particular, do Árabe, foi decisivo o apoio que Cenáculo concedeu a Frei João de Sousa e, posteriormente, aos discípulos deste: Fr. José de Santo António Moura e Frei Manuel Rebelo da Silva.

Em 1777, por morte de D. José I e em consequência da “Viradeira”, Cenáculo foi afastado da Corte, seguindo para Beja cujo bispado lhe tinha sido concedido, em 1770. A sua permanência em Beja (1777-1802) saldou-se por uma multifacetada actividade de reformador eclesiástico da sua diocese, de pedagogo e de mecenas. A fim de poder continuar a promover estudos, em geral, e os Estudos Orientais, em particular, instituiu, no Paço Episcopal de Beja, um Curso de Humanidades e de Teologia, iniciado ainda em 1777. O curriculum, na fase mais desenvolvida do curso, abrangia sete cadeiras, às quais era acrescentado o ensino de línguas, ministradas segundo a ocorrência de discípulos e professores, sendo o ensino do Grego, Hebraico e do Árabe encarado como complemento do ensino religioso. As despesas com o ensino eram suportadas com os rendimentos da Mitra de Cenáculo. Nos anos 1780-1784, o Padre Miturowicz, de origem húngara, ensinou aí as Línguas Orientais, Em 1793, Cenáculo instituíu a Academia Eclesiástica de Beja.

Para Cenáculo, o Árabe tinha importância adicional como instrumento de compreensão do Islão, tema que abordou na perspectiva de missionação no estudo Advertencias Criticas sobre Raymundo Lullo (1752) e, na perspectiva teológica, nos Cuidados Literários (1791).

Cenáculo fomentou também o estudo do património, encarado como uma parcela da memória histórica. Do seu interesse pelo passado islâmico de Portugal, nasceu o primeiro levantamento da epigrafia árabe do Alentejo, realizado, a seu pedido, por um outro franciscano, Fr. João de Sousa, em 1788.

A colecção de antiguidades que reuniu, onde se destacava um importante núcleo de numismas e peças de epigrafia árabes, esteve na origem da criação de um dos primeiros museus públicos, o Museu Pacense de São Sisenando (1791).

O papel de Cenáculo no processo de afirmação de Estudos Orientais não se esgotou nem no acolhimento de mestres estrangeiros, nem no mecenato generoso, mas, antes de tudo, a sua acção logrou criar um ambiente receptivo para este domínio de estudos ao demonstrar os resultados obtidos e a sua utilidade.

Manteve contactos epistolares com outros Orientalistas, nomeadamente com Gregorio Mayans, Perez Bayer, Córnide y Saavedra, Fr. José Banqueri, Fr. João de Sousa e Fr. José de Santo António Moura.

E-M.v.K

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