Manuel Dias Sénior

DIAS Sénior, Manuel (c. 1560, vila de Alpalhão, Nisa/Portalegre – 1639, Macau), missionário jesuíta na China, visitador e reitor do colégio de Macau

Admitido no noviciado da Companhia de Jesus em Évora, em finais do ano de 1575, Manuel Dias, cognominado Sénior (para o distinguir de um outro jesuíta da missão da China, seu homónimo, ligeiramente mais novo) ali concluiu os seus estudos de Filosofia e realizou parte dos de Teologia. Uma década mais tarde, já com 25 anos, embarcou para a Índia, tendo alcançado Goa em 1586. Nesse mesmo ano, ou no seguinte, foi ordenado padre. Permaneceu na Índia sete anos, até que, designado para o Japão, partiu para Macau em 1593, aos 33 anos. A estadia foi, no entanto, breve, pois no ano seguinte já estava de regresso à Índia, como companheiro de Alessandro Valignano (1539-1606), o visitador das Índias Orientais. Novamente em Macau, ocupou, entre 1597 e 1601, o cargo de reitor do colégio jesuíta da Madre de Deus. Seguiu-se a entrada na missão da China, altura em que adoptou o nome Li Manuo 李瑪諾. Aí, entre 1603 e 1609 foi reitor das residências jesuítas do Sul (Shaozhou, Nanchang e Nanquim), subordinado ao superior da missão, Matteo Ricci (1552-1610). Voltou depois a Macau, onde se manteve por mais de dez anos. Nesse período, desempenhou, pela segunda vez, entre 1611 e 1615, o cargo de reitor do Colégio jesuíta. Em 1622, foi escolhido para visitador da missão da China, dando início a uma viagem de inspecção, concluída em 1624. Parece ter continuado na China continental até 1629, quando, já muito afectado pela surdez, o visitador André Palmeiro (1569-1635) decidiu que passasse a Macau. Em 1635, por ocasião da morte deste visitador, Dias foi escolhido para o suceder, mantendo-se em funções até pouco antes de falecer, naquela cidade, em 1639, no meio de um aceso conflito com os missionários do Japão que o depuseram. Encontrava-se então à beira dos 80 anos, metade dos quais passados em Macau (c. 25 anos) e na China continental (16 anos).

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Assinatura de Manuel Dias Sénior numa carta de 1597.
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Relato do naufrágio da nau Santiago, a bordo da qual Manuel Dias iniciou a viagem para Goa, em 1585 (publicado por Bernardo Gomes de Brito, ed., História Trágico-Marítima, tomo II, Lisboa: Officina da Congregação do Oratório, 1736).

Ao longo deste extenso período, a produção textual de Manuel Dias foi significativa. Com efeito, sobreviveram mais de meia centena de cartas e outros documentos, onde podemos encontrar informação variada sobre a China e Macau. Refira-se quase uma dezena de cartas ânuas (os relatórios anuais enviados para Roma) de sua autoria, quer do colégio da Madre de Deus, quer da missão da China, das quais duas foram publicadas à época (ânuas da China de 1619 e de 1625), em edições italianas (1624 e 1629) e francesas (1625 e 1629).

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Carta ânua da China de 1625, de Manuel Dias. Traduzida de português para italiano, foi publicada em Lettere dell’Ethiopia Dell’Anno 1626. fino al Marzo del 1627 E della Cina Dell’Anno 1625. fino al Febraro del 1626, Roma: Appresso l’Erede di Bartolomeo Zannetti, 1629. O manuscrito original encontra-se na Real Academia de Historia, em Madrid.

Deste corpo documental, afigura-se particularmente interessante, pelo seu carácter pioneiro, uma “Ratio studiorum para os nossos que ham-de estudar as letras e lingua da China”. Datada de 1624, constitui o primeiro plano de estudos de chinês composto por um europeu. Deste documento apenas sobreviveu uma cópia manuscrita do século XVIII, preservada na Biblioteca da Ajuda.

Na elaboração deste plano não terá sido alheia a experiência de Dias no estudo de chinês. Ao que tudo indica, o jesuíta nunca terá dominado a língua, como sucedeu com outros dos seus correligionários da China. Mas, ainda assim, dedicou-se ao seu estudo durante algum tempo, o que lhe permitiu conhecer a estrutura da língua e as dificuldades inerentes à sua aprendizagem. Em 1605, três anos após o seu ingresso na missão, declarava que até então se tinha essencialmente devotado àquele estudo. Três anos mais tarde, com quase 50 anos, asseverava já estar em condições de compreender razoavelmente a língua, apesar da complexidade desta, com tantas e “tão intrincadas letras”, e da sua idade demasiado avançada. Mais atrasado na oralidade, previa que num prazo de dois anos, já estaria em condições de falar de forma a que os chineses o entendessem. Porém, assim não terá sucedido, pois em 1623, continuava a queixar-se da sua “falta de lingoa”.

Seja como for, no ano seguinte, após consultar sobre o tema os membros mais experientes da missão da China, durante a sua visita àquela, Dias redigiu um conjunto de directrizes para o estudo do chinês. Destinado aos missionários europeus e estudantes de Macau, pretendia-se que assim pudessem levar a cabo a aprendizagem “com mais proveyto e menos trabalho que ate agora”. Tinham, até então, decorrido cerca de 40 anos de estudo sistemático da língua por parte dos jesuítas daquela missão.

Nesta Ratio Studiorum, que pelo menos durante algum tempo parece ter sido efectivamente posta em prática, é clara a síntese entre os métodos jesuíta e chinês de ensino. Com efeito, tendo por base, como o próprio nome indica, a Ratio Studiorum que regulamentava os estudos nos colégios da Companhia de Jesus, juntavam-se todo um conjunto de determinações fundadas nas práticas chinesas de ensino. O plano compreendia três fases de aprendizagem ao longo de quatro anos: uma primeira, de introdução à oralidade e caracteres; uma segunda  de iniciação na leitura e de análise dos textos confucianos (Quatro Livros/Sishu), sob a orientação de um mestre que ensinasse em português; e uma última, que incluía a revisão sistemática das matérias já abordadas, mas com um mestre chinês, capaz de clarificar e aprofundar os conhecimentos adquiridos.

Se este plano se pode destacar entre os textos de Dias Sénior, evidentemente o seu conhecimento sobre a China Ming, foi bastante mais abrangente, como fica perfeitamente patente na documentação que chegou até nós.

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“Ratio Studiorum”, composta por Manuel Dias Sénior, em 1624 (Biblioteca da Ajuda, Jesuítas na Ásia 49-V-7, fls. 310v-315).

IMP

Bibl.: BROCKEY, L. M. (2007), pp. 255-268; COSTA, J.P. Oliveira e PINTO, A. Fernandes (1999); SEBES, J. (2001), pp. 1112-1113; PFISTER, L. (1976), p. 74; PINA, I. Murta (2008), pp. 79-94; TEIXEIRA, M. (1972), p. 149.

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