Maria Anna Acciaioli Tamagnini

TAMAGNINI, Maria Anna Acciaioli (1900, Torres Vedras – 1933, Lisboa), poetisa, filantropa

Retrato da poetisa
Retrato da poetisa

De nome verdadeiro Maria Ana de Magalhães Colaço Acciaioli, filha do juiz Manuel de Barros da Fonseca Acciaioli Coutinho e de Lia de Magalhães Colaço, Maria Anna Acciaioli Tamagnini é reputada como a primeira mulher portuguesa a compor poesia de temática extremo-oriental, inspirada na vivência directa de um espaço asiático – no seu caso, Macau.

A poetisa, educada no seio da alta sociedade lisboeta, frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa, onde conheceu Artur Tamagnini de Sousa Barbosa (1881-1940), então seu professor. Contraíram matrimónio (1916) e, com a nomeação de A. Tamagnini para governador de Macau, comissão que cumpriu por três vezes (1918-1919, 1926-1930 e 1937-1940), M. Tamagnini mudou-se para a Cidade do Santo Nome de Deus. Entre Lisboa e Macau, terá vivido cerca de sete anos em Macau, em plena harmonia com as comunidades chinesa e europeia. Terá sido professora de francês e de história da literatura francesa e aprendeu cantonês, o que lhe permitiu entreter e conviver com os chineses frequentadores do Palácio do Governo em Macau. Do casamento com o governador de Macau nasceram cinco filhos, tendo o último nascimento causado a morte prematura da poetisa, pouco antes de completar 33 anos de idade.

A sua vida em Macau desdobrou-se, por um lado, em colaborações com a imprensa periódica (destacando-se revistas femininas de cultura), quer em verso quer em prosa, e, por outro, numa missão filantrópica de apoio ao meio artístico e cultural de Macau e de apadrinhamento de obras sociais, que lhe granjeou a simpatia e admiração da população macaense. A sua acção solidária foi, em 1940, reconhecida com a atribuição do seu nome ao Asilo de Mendicidade, entretanto destruído. Admiradora de Eça de Queirós, Camilo Pessanha, Wenceslau de Moraes e sobretudo de Florbela Espanca, a artista dedicou-se ainda à pintura, chegando a pintar quadros de motivos orientais para desfruto familiar.

Em vida, publicou uma única obra: Lin-Tchi-Fá. Flor de lotus. Poesias do Extremo Oriente (Lisboa, 1925), que teve duas reedições (1991 e 2006), ambas prefaciadas por Natália Correia. A obra abre com uma ilustração da autoria da própria M. Tamagnini e lista no final a “Significação das palavras exoticas” usadas. As poesias desde logo evidenciam afinidades intertextuais e estéticas com as de Cancioneiro chinez (1890), de António Feijó (1859-1917). Aproximam-se, por vezes, do exercício de reescrita, como testemunha o poema “Amor e indiferença”, em diálogo com “A uma mulher formosa”, de Cancioneiro chinez, passando inclusive pelo cultivo de uma estética parnasiana. Os trinta poemas de Lin-Tchi-Fá vão, no entanto, muito além da reescrita e da geografia poética da China, ao evidenciar um interesse particular pela mulher extremo-oriental – macaense, chinesa ou japonesa – e ao investir em diversas formas versificatórias e num jogo constante entre palavra, ritmo e imagem, que ecoa a lírica simbolista. A obra de M. Tamagnini dá provas de uma imaginação e sensibilidade que se podem descrever como femininas, ao mesmo tempo que os seus retratos do feminino extremo-oriental concorrem para a feminização do Oriente em língua portuguesa.

Capa da primeira edição de Lin-Tchi-Fá. Flor de lotus. Poesias do Extremo Oriente (1925)
Capa da primeira edição de Lin-Tchi-Fá. Flor de lotus. Poesias do Extremo Oriente (1925)
Ilustração que antecede a folha de rosto de Lin-Tchi-Fá (1925), assinada “Maria Anna”
Ilustração que antecede a folha de rosto de Lin-Tchi-Fá (1925), assinada “Maria Anna”

Em 2006, na reedição da obra pela Editorial Tágide, a editora declara, na “Nota biográfica” da autora, “arranca[r] assim à sombra do olvido uma extraordinária poetisa do orientalismo”.

MPP

 

Bibl.: CORREIA, N. (2006), pp. 9-12; TEIXEIRA, P. M. (1974), pp. 67-75; THOMPSON, E. (2009)

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