Tomás Pereira

Pereira, Tomás (1646, S. Martinho do Vale/Braga-1708, Pequim), missionário jesuíta na China, músico, artífice, presidente-interino do Departamento Astronómico de Pequim, conselheiro político/diplomático  

Originário de uma família da nobreza rural, figura no registo de baptismo como Santos. Tendo estudado em Braga e Coimbra, foi nesta última cidade contemporâneo do padre António Vieira (1608-1697) e, também, do primeiro padre jesuíta chinês, Manuel de Sequeira/Zheng Weixin (1633-1673). Ao ingressar na Companhia de Jesus, em 1663, tomou o nome de Tomás, pelo qual ficou conhecido.

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Registo de baptismo de Tomás Pereira (“Sanctos”), 5/11/1646 (Arquivo Distrital de Braga)

Em 1666, partiu para Goa, onde prosseguiu os seus estudos e foi ordenado padre, em 1671. Neste mesmo ano, embarcou para Macau, sendo depois designado para a missão da China. Devido aos seus dotes musicais, foi estrategicamente colocado em Pequim, após ter sido recomendado ao imperador chinês Kangxi (1662-1722), pelo superior da missão, Ferdinand Verbiest (1623-1688). Chegado à capital Qing nos primeiros dias de 1673, aos 26 anos de idade, ali viveu nos 36 anos que se seguiram, sempre sob o mesmo imperador. Tendo adoptado o nome de Xu Risheng/徐日昇, deu desde logo início à aprendizagem da língua chinesa e foi, ao longo do tempo, adquirindo um elevado domínio daquela, assim como da cultura chinesa, através do estudo e da larga vivência na Corte Imperial.

Os seus conhecimentos musicais, a par da sua habilidade manual contribuíram decisivamente para alcançar uma posição de destaque na Corte Qing, pouco comum para um europeu. A sua aproximação a Kangxi remonta ao início da década de 1680, período em que lhe deu aulas de música europeia, assim como a alguns dos príncipes imperiais. Nesse âmbito, compôs um tratado, Lulu zuanyao (Elementos de Música), considerado o primeiro de música europeia em chinês. Para ensinar e falar de música a Kangxi, Pereira acompanhou-o por duas vezes nas suas viagens à Tartária (Manchúria, 1685; e Mongólia, 1696).  Enquanto “artífice”, como se auto-intitulava, projectou e construiu um vasto conjunto de instrumentos musicais (sobretudo orgãos e sinos), relógios e outros engenhos mecânicos, vários dos quais oferecidos ao imperador e a outros altos dignitários da Corte. Foi ainda escolhido para reparar os relógios da colecção imperial.

No final da década de 1680, desempenhou um relevante papel nas relações diplomáticas entre a China e a Rússia como tradutor e conselheiro político/diplomático, da delegação imperial chinesa que se dirigiu a Nerchinsk (Sibéria), para negociar a delimitação das fronteiras com os russos, e de que resultou a assinatura, em 1689, do primeiro tratado de paz sino-russo (Tratado de Nerchinsk). Estas negociações foram registadas por Pereira, num longo relato, escrito em 1690, após o seu regresso a Pequim.

Entre 1688 e 1694, assumiu a presidência, a título interino, do Departamento Astronómico (Qintianjian) de Pequim, cargo predominantemente ocupado pelos jesuítas, desde o início da dinastia Qing.

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Carta de Tomás Pereira a Giovanni Filippo de Marini, Pequim, 20/8/1678 (Archivum Romanum Societatis Iesu, Jap.Sin. 124, fl. 149)

O lugar que foi alcançando junto de Kangxi traduziu-se na atribuição de todo um conjunto de honras e benesses, por meio das quais o imperador o foi distinguindo e reconhecendo os seus serviços. De entre estas, sobressai o chamado Édito de Tolerância em favor da religião cristã, promulgado em 1692 e posteriormente gravado na sua lápide funerária. A imagem de servidor leal e de homem de virtude ficaria plasmada numa compilação de ensinamentos dirigida por Kangxi aos príncipes imperiais (Shengzu Ren huangdi tingxun geyan 聖祖仁皇帝庭訓格言).

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Assinatura de Tomás Pereira

Destes 36 anos em que viveu em Pequim, saliente-se a sua larga produção textual, de que se conservam 151 cartas e 10 relatos e tratados, que atestam a dimensão dos seus conhecimentos sobre a China Qing, o império em que viveu mais de metade da sua vida. Um dos tratados mais relevantes, por ter sido o primeiro sobre o tema da autoria de um europeu, é o que dedicou ao Budismo chinês. Este sobreviveu apenas por via indirecta, integrado literalmente na obra do também jesuíta Fernão Queirós, Conquista espiritual e temporal de Ceilão (c. 1687-1688). O tratado destaca-se da anterior produção jesuíta sobre o Budismo por ter tido directamente por base uma obra chinesa sobre a vida de Buda, que foi traduzida, sumariada e comentada.

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Tratado do Budismo Sínico, s.l. (anterior a 1688) (Biblioteca Nacional do Brasil, Rio de Janeiro)

C.C.G. & I.M.P.

Bibl.: BARRETO, ed. (2010); GOMES & PINA (2016), pp. 6-16; PEREIRA (2011); SARAIVA, ed. (2013); WARDEGA & SALDANHA (2012)

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