Wenceslau José de Sousa Moraes

MORAES, Wenceslau José de Sousa (1854, Lisboa – 1929, Tokushima), oficial da marinha, cônsul, escritor.

Fotografia de 1921
Fotografia de 1921

Oriundo de uma família de militares, W. de Moraes concluiu, em 1875, o curso da Escola Naval. Promovido a guarda-marinha, em Dezembro de 1876 embarcou para Moçambique. Em 1888, já como primeiro-tenente, foi enviado para Macau, ingressando de seguida em missões que o levaram a Sião, Taiwan, Timor, Hong Kong e a outras cidades chinesas, como Fucheu, Xangai ou Dagu. Em 1889, visitou pela primeira vez o Japão (Kobe, Iocoama e Nagasáqui); o fascínio sentido foi imediato. Terá sido também nessa altura que iniciou a sua relação com a anglo-chinesa Vong-Ioc-Chan (Atchan).

A última vez que W. de Moraes visitou a pátria foi em 1891; a partir daí, manteve contacto com o país apenas por correspondência. No final desse ano, foi promovido a capitão-tenente e nomeado imediato da capitania do porto de Macau. Passou ainda a assegurar funções de fiscalização de importação e exportação do ópio, de que foi exonerado em 1894. Também em 1894, juntou-se ao corpo docente do Liceu de Macau, onde travou amizade com Camilo Pessanha, que lhe dedicou, em Clepsydra (1920), o poema “Viola chinesa”.

Publicou em 1895 o seu primeiro livro, Traços do Extremo Oriente, e Dai-Nippon (o grande Japão) em 1897, no âmbito das comemorações do IV Centenário do Descobrimento da Índia (1898).

Folha de rosto da primeira edição de Dai-Nippon (1897), em que W. de Moraes é identificado como sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa
Folha de rosto da primeira edição de Dai-Nippon (1897), em que W. de Moraes é identificado como sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa

Obra de celebração do Japão, Dai-Nippon conheceu nova edição em 1923 pela Seara Nova, organizada por Almeida d’Eça (1852-1929). Esta reedição, não autorizada pelo autor, foi motivo de ruptura com o amigo.

Em 1898, W. de Moraes trocou Macau pelo Império do Sol Nascente, abandonando a família chinesa, que não deixou, todavia, de apoiar financeiramente. A partir de 1899, assumiu a posição de cônsul interino de Hiogo (Kobe) e Osaka. Em Kobe, terá desposado a gueixa Ó-Yoné (Senhora Bago de Arroz), numa cerimónia xintoísta.

Foto de W. de Moraes no consulado de Portugal em Kobe.  Bilhete-postal enviado à família em Dezembro de 1911
Foto de W. de Moraes no consulado de Portugal em Kobe.
Bilhete-postal enviado à família em Dezembro de 1911

Durante o exercício consular, publicou O culto do chá (1905) – uma edição de autor com ilustrações pelo pintor Yoshiaki e gravuras de Goto Seikodo – e Paizagens da China e do Japão (1906) – uma colectânea de contos e lendas da tradição oral da China e do Japão, entretecidos com apontamentos sobre a sua vida no Extremo Oriente publicados na imprensa (sobretudo O Commercio do Porto e Brasil-Portugal).

Reprodução da capa da primeira edição de O culto do chá (1905)
Reprodução da capa da primeira edição de O culto do chá (1905)

Com a morte de Ó-Yoné (1912) e face à crescente insatisfação profissional, W. de Moraes pediu demissão dos cargos diplomáticos, em Kobe, a 10 de Junho de 1913. Mudou-se então para Tokushima (na ilha de Shikoku), terra da falecida Ó-Yoné, onde a escrita se tornou a sua ocupação diária.

Em 1916, saiu O “Bon-Odori” em Tokushima (uma recolha de 68 cartas, em estilo de diário íntimo) e foi abalado por nova tragédia: Ko-Haru Saito, quarenta anos mais nova e sobrinha de Ó-Yoné, que servira na sua casa em Kobe e que, após a morte da tia, com ele vivera intimamente em Tokushima, foi vítima de tuberculose pulmonar. Entre 1918 e 1919, W. de Moraes homenagearia essas mulheres, ao publicar em separatas da revista Lusa os contos Será Ó-Yoné… será Ko-Haru?… (1918, vol. II) e O Tiro do meio-dia (ainda Ko-Haru) (1919, vol. II). O tributo Ó-Yoné e Ko-Haru saiu em 1923.

Em 1924, publicou Relance da historia do Japão, que inclui o apêndice “Fernão Mendes Pinto no Japão” (1920). Dois anos mais tarde, foram dados à estampa Os Serões no Japão e Relance da alma japoneza. O primeiro, encomendado por Henrique Lopes de Mendonça (1856-1931), editor de Serões, reúne artigos redigidos entre 1906 e 1909 para essa revista ilustrada. Relance da alma japoneza, o último testemunho que escreveu, fecha um ciclo de actividade literária, ao lançar um olhar retrospectivo sobre a cultura japonesa, focando em particular o que descreveu como a “impersonalidade japonesa”.

Nos últimos anos de vida, cada vez mais isolado e fisicamente debilitado, W. de Moraes cortou relações com os europeus e macaenses residentes no Japão. Morreu vítima de uma queda no pátio de casa. As suas cinzas repousam no cemitério de Tokushima juntas às de Ko-Haru, ao lado do túmulo de Ó-Yoné. Em Lisboa, na casa onde nasceu, na Travessa da Cruz do Torel, jaz uma placa em sua homenagem.

W. de Moraes é ainda hoje um importante japonólogo e foi sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa, em cujo Boletim colaborou. A par da actividade de escrita, destaca-se o empenho consular em dinamizar a política de internacionalização de Portugal através do investimento nos mercados asiáticos, sobretudo de Macau e Japão. A série Cartas do Japão (primeira série, 1904-1907; segunda série, redigida em 1907-1913 e publicada em 1928) testemunha esse empenho. Nela comenta a actualidade japonesa antes, durante e após a guerra com a Rússia (1904-1905).

Estátua de W. de Moraes no Monte Bizan,  em Tokushima. Foto tirada e cedida pela Professora Doutora Kioko Koiso.
Estátua de W. de Moraes no Monte Bizan,
em Tokushima. Foto tirada e cedida pela Professora Doutora Kioko Koiso.
Placa da Rua Wenceslau de Moraes, em Tokushima.  Foto tirada e cedida pela Professora Doutora Kioko Koiso.
Placa da Rua Wenceslau de Moraes, em Tokushima.
Foto tirada e cedida pela Professora Doutora Kioko Koiso.

O seu espólio reparte-se entre o Arquivo da Biblioteca Central da Marinha, a Biblioteca Nacional de Portugal, o Museu de Wenceslau de Moraes, em Tokushima, e ainda o Museu Municipal de Kobe. A sua obra está integralmente traduzida para a língua japonesa.

Capa de uma tradução japonesa de O Bon-Odori em Tokushima por Takiko Okamura (1998)
Capa de uma tradução japonesa de O Bon-Odori em Tokushima por Takiko Okamura (1998)

MPP

Bibl.: JANEIRA, A. M. (1979); LABORINHO, A. P. (2004); PINTO, M. P. (2013); PIRES, D. (1993); SANTOS (1943), pp. 347-421.