X Congresso Internacional dos Orientalistas

X Congresso Internacional dos Orientalistas, Lisboa, 1892.

 

O processo de institucionalização dos Estudos Orientais na Europa traduziu-se pela criação de colecções de manuscritos, fundação de bibliotecas especializadas, de sociedades científicas e de museus, na instituição de cadeiras de línguas orientais em diversas universidades e também de fora de intercâmbio de trabalhos e debates entre os estudiosos dos vários Orientes, nomeadamente através da instituição do Congresso Internacional dos Orientalistas. O primeiro, em 1873, teve lugar em Paris, então um dos principais centros de Estudos Orientais a nível mundial.

Foram, sucessivamente, organizados Congressos Internacionais dos Orientalistas em Londres (“a philological Parliament”, II, 1874), St. Petersburgo (III, 1876), Florença (IV, 1878), Berlim (V, 1881); Leyden (VI, 1884), Viena (VII, 1886), Estocolmo e Cristiana (VIII, 1889) e, novamente, em Londres (IX, 1891).

As respectivas Actas constituíram o state of art de cada das especializações representadas, proporcionando uma sucessiva actualização dos conhecimentos.

Não obstante Portugal não oferecer, na altura, nenhum desenvolvimento académico nesta área, em sincronia com as suas relações seculares com vários Orientes, foi o X Congresso Internacional dos Orientalistas convocado, em finais de Setembro de 1892, para Lisboa. Esta decisão não foi, porém, unânime, na medida em que havia apoiantes da organização do X Congresso Internacional dos Orientalistas em Espanha, por ocasião do Quarto Centenário do Descobrimento da América, criando à partida uma divisão entre os membros desse grémio.

Em Portugal, a instituição escolhida para acolher o evento foi a Sociedade de Geografia de Lisboa, fundada em 1875, sendo Presidente de Honra do Congresso, na senda do envolvimento da realeza nos Congressos anteriores, D. Carlos I. O Conde de Ficalho, Vice-presidente da Sociedade de Geografia e um Orientalista amador, foi nomeado Presidente do Comité Executivo do Congresso.

O programa científico contemplava a realização das sessões repartidas por 24 secções, tendo recolhido 76 contribuições de 44 autores estrangeiros e portugueses.

Por razões ainda mal conhecidas, a realização do X Congresso Internacional dos Orientalistas, convocado para Lisboa foi gorada, sendo, por isso, muitas vezes adjectivado de “malogrado”. A justificação oficial, transmitida pelo Secretário do Comité Executivo do Congresso, refere o “adiamento, decretado pelo Governo de Portugal”. Em consequência, o X Congresso teve lugar, em 1894, em Genebra.

Todavia, os preparativos para o X Congresso Internacional dos Orientalistas que não teve lugar, em Lisboa, permitiram revelar um número algo significativo de estudiosos portugueses interessados na problemática orientalista, alguns com formação auto-didacta, outros com estudos especializados, obtidos no estrangeiro e que vieram a desempenhar papel relevante no fomento de Estudos Orientais em Portugal, tais como, entre outros, Francisco Maria Esteves Pereira, David Lopes e Guilherme de Vasconcelos Abreu.

De sublinhar que uma parte dos trabalhos propostos ao Congresso, veio a ser publicada quer pela própria Sociedade de Geografia de Lisboa, quer pela Imprensa Nacional, sendo os restantes trabalhos conhecidos apenas pelos seus títulos. Essas publicações permitiram preservar do oblívio esta fase inicial de Estudos Orientais em Portugal ainda sem enquadramento académico.

E-M.v.K

Bibl.: VASCONCELLOS ABREU, G. de (1892); RAMOS, J. de D. (1996), pp. 123-212; KEMNITZ, E-M. von (2010), pp. 507-509; Idem (2012a), p. 169-173; Idem (2012b), p. 59. SIDARUS, A. (2015, no prelo).

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